quarta-feira, agosto 09, 2006

AINDA NESSE ENORME PRÓLOGO



Brasília para Ele ser

Era meia-noite e vinte e seis. Ele teria que esperar quase dez minutos para que a internet voltasse a funcionar. Foi o modo mais fácil que a empresa de cabeamento conseguiu para evitar que o hub ficasse parado por muito tempo no caso de falha no sistema: havia horas do dia em que a energia era automaticamente desligada para o aparelho por dez minutos. Ele sabia que meia-noite e meia, a internet cairia até meia-noite e quarenta. Como o relógio do computador estava atrasado, calculou o prazo.

Foi aí que Ele pegou o livro que Rachel havia deixado encima da estante: Sushi. Pareceu que as páginas estavam marcadas mais ou menos em um terço do volume. Folheou e as folhas pararam de passar.

Era um bilhete aéreo com um adesivo sobre o logotipo da GOL, impresso economicamente, quase que às pressas e clandestinamente, em papel de fax, já começando a perder a visibilidade. Marcava a data de 12FEB06, num enorme vôo 1617 de Vitória a Confins. O horário de 14h40 estava sublinhado.



Aquela fora uma tarde de sol úmido. ele almoçara com os pais para que não esquecesse o sabor do mar e da moqueca, através das paredes de vidro do Moqueca e Cia, à beira mar. Almoçaram mais cedo que gostariam e, mais cedo que gostariam, chegavam numa ânsia estranha no aeroporto de Goiabeiras.

Conversavam sobre as obras do novo terminal de embarque. Encontravam-se amigos, todos com poucos assuntos, sorrisos bobos e tristes. Falta de ânimo da tarde antecipada, em que se esperava, no sol a pico, o vermelho do fim de dia.

No embarque, duras palavras sinceras, saltadas do peito. Abraços desagradáveis espalhados, enquanto ele se desvencilhava para perseguir o atraso para chegar à sala de embarque.

Quase tudo que tinha passava pela outra porta de vidro, numa mala média, numa carroça amontoada. Passara por aquela sala apinhada, olhares trocados sem empatia com outros passageiros. E de lá para Belo Horizonte, nuns confins muito mais a norte e muito menos urbano que o que lhe pareceria conveniente.

Lia Sushi, entendia o que havia deixado para trás. Amava e odiava aquilo. Era uma faca que apertava em seu peito à medida em que ia ao oeste. E era uma vida esgotada que matava em nome de uma recém-novidade.

E teve horas de tempo para entrar naquele aeroporto pela porta dos fundos, e transitar lá dentro, sem em momento nenhum sair para as portas da cidade. E foram horas levadas, em que se comeu da simpatia tímida e da simplicidade brega dos mineiros, naquele prédio-prólogo do modernismo original de Brasília.

Outro bilhete molhado, grampeado, recortado, e a conexão o punha com sorrisos no portão B2 ao invés do B1, no assento 20F do vôo 1714 das 18h55 para Brasília, no aeroporto cujo nome já pronunciava com carinho de apelido: Aeroporto JK.

Não soubera mais se escolheu pêssego light ou caju, ou qual das barras comera. Sentira uma tristeza velada, uma certeza divina no futuro e, na fuga, se cobria com o manto da noite que se estendia sobre o mar calmo das serras de Minas.

Li Sushi. Era noite, era Irlanda chuvosa, do inglês que sai do conforto de sua ubanidade para a solidão de paredes antigas.

E, sobre o Planalto, vira o mar de estrelas, agora pela terceira e definitiva vez, o tapete de luzes ordenadas, que giravam umas por sobre as outras, direcionando cores amarelas e vermelhas. Eram quase dez horas.

Políticos cansados, senhoras desarrumadas e com maquiagens vencidas, se amontoando para recolher os pertences pessoais, logo após o “Já!” do “Bem-vindos ao Aeroporto Internacional (...) Presidente Juscelino Kubitschek”.

E o caminho solitário, com a vida agora amontoada em mais um carrinho, um caracol, para baixo em direção à saída conhecida, passando pelas plantações semi-artificiais de espécimes do Cerrado.

Táxi pelos R$30,00 em conta da CAIXA, o incerto ponto em que se atravessa o lago, do Lago Sul ao Eixão, pelas entradas e saídas dos então viadutos (?), através dos prédios da Caixa e do Bacen, como enormes peças de brinquedo, enterradas no barro vermelho. Depois girar à vontade até o Setor Hoteleiro Sul.

Fora um rápido check-in e um arrumar de roupa mimicamente cuidadoso, como se estivesse sendo observado por câmeras de reality show. Inclusive assistira Big Brother na Globo e Saia Justa (?) nos canais opostos.

Houvera raios e trovões, chuva e ventania, e ligações tão próximas e tão distantes.

(Em outro quarto, pouco antes, havia imitado surpresa: “Parabéns!” até de quem não deveria).

E noutro dia, atravessou as passagens secretas subterrâneas – salões de barbeiro, lojas de sapato, churrascaria, pizzaria, loja de roupas, saídas distantes para o metrô – até o estranho estacionamento do Setor Bancário Sul. Passou pela Emgea, estranhamente materializada no subterrâneo de um prédio qualquer. Um calor estranhamente conhecido de longa data, que agora era novamente úmido. Uma pressa desarranjada, uma timidez violentada. Uma realidade construída.

Cinco andares, que em insegurança girou em caracol pelas escadas, chegando ofegante à (direita ou esquerda?) Ouvidoria, com a caixa com seus carimbos, carteira de trabalho, talão de cheques e passaporte.

Não lembra de ter sido apresentado a ninguém. Foi uma seqüência em que alguma coisa se lhe apossou e se lhe fez trabalhar.

Só teve a certeza de voltar a ele quando peguou um vôo parecido em direção, mas com uma alma plena, com um espírito inteiriço, e agora levando para casa fotos do sentido oposto. Só foi ele de volta então.

O avião e a vida levam nosso corpo com rapidez nos sentidos mais improváveis. A alma ainda fica um tempo, assombrando o espaço-tempo, brincando entre aqui e lá. Ele teve que ir se empossar de uma nova alma, à medida em que deixava a velha, ela para sempre lá.

(03/06/2006 // 01:32 do relógio do computador)