sexta-feira, janeiro 26, 2007

Paulo César Vinhas

Enquanto o sol vai iluminando essa SGAN912 pela última vez, parei o redemoinho por vinte e oito minutos para ter um daqueles momentos que as pessoas costumam ter em semi-postumidade. Revivi em respectiva uma tarde, num dia, num ano de uma vida.

Justo nessas semanas zodiacais, dei bom dia a um novo mim mesmo. Conheci uma pessoa que encerrou assuntos pendentes com essa quadra interna, silenciosa e ruminante. Gostei do que vi.

Quando o sol nascer novamente em Brasília, a vida é outra.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Vamos Criticar - Parte 3 - Bajofondo Tango Club

Bajofond Tango Club

O Brasil já tinha se acostumado com a tal modernidade musical, que mistura samba, bossa e drum and bass, no mínimo. Na verdade, primeiro o resto do mundo se acostumou e depois o Brasil aderiu, como quase sempre acontece, já que as coisas chegam por último aqui, mesmo as que nascem em solo tupiniquim.

Pois bem.

Agora os argentinos acordaram que, para eles, é muito mais divertido tomar um vinho ao som do tango que tentar improvisar na bossa-nova, mesmo que remix.

O Bajofound Tango Club é, então, uma dessas novas bandas mudernas argentinas, que desfilam batidas sampleadas com rompantes explosivos de acordeons e violinos frenéticos, no embalo eletrônico, mas com a cadência triste e melódica do tango em que os “s” se pronunciam como “r”.

Destaque para as capas, que retiram dos ícones mais inconscientes do tango os elementos mais digitais, assim como a música, nesse caso, foi capaz de fazer.

Nasceu o eletrônico castellano. E seja bem-vindo.

Vamos Criticar - Parte 2 - Apollo Nove

Já faz uns anos que os modernos ostracistas do Brasil cantaram suas canções do exílio, com acordes da terra e sons do exterior – e vice-versa. No começo da década de dois mil, os tais chill-outs que pipocaram em todas as festas e raves acordaram e importaram esse novo som brasileiro, que já era bastante batido do lado de fora com Cibelle, Suba, Zuco 103 – que brincaram com “O Homem da Gravata Florida”, do Ben – e até a velha-de-guerra Bebel Gilberto, que andava bem esquecida aqui, no lado de dentro.

Hoje, com a redescoberta da Trama Records, qualquer Luciano Huck toca essa nova MPB estrangeira, que se reencontra com o som de casa e produz coisas bem interessantes.

E é aí que vem meu novo disco preferido, Res Inexplicata Volans, do produtor Apollo Nove. É um som brasileiro que voltou do intercâmbio com sotaque francês, espanhol e todo vestido de londrino. E é meu som preferido do momento porque traz barulhos nostálgicos de décadas passadas, que lembram o mormaço tedioso do domingo quente, os shorts Adidas e longas viagens pela BR101, quando a Elis ainda dava os últimos suspiros daquela música brasileira que não se compõe mais.

Vamos Criticar - Parte 1 - Cansei de Ser Sexy

Prosseguindo com meus “ensaios literários de pré-concepção”, me inspirei muito esse fim de semana ao resgatar umas músicas que o Saraiva tinha me mandado e que ainda não tive tempo de escutar. Com isso, abandonei – talvez temporariamente – o Confessions on a Dancefloor e renovei os MP3 do meu player.

Com isso, vão algumas dicas também para quem quiser conhecer coisas novas (e algumas nem tanto):

Cansei de Ser Sexy
Eles são paulistanos no sentido mais tétrico da palavra, e se entregaram à tal pós-modernidade caótica para tentar reviver a nostalgia cinza e preta da década de oitenta. No começo, quando a proposta ainda era inédita, foram falados e comentados por todos os veículos que têm essa preocupação comercial em se mostrar os top of the pops da contemporaneidade. Hoje, pelo que sei, eles usam as mesmas roupitchas oitentistas, os mesmos cabelos punk e os mesmos brincos em formato de raios, mas o som nunca saiu de ser uma experimentação alternativa. O que, diga-se de passagem, é ótimo! Eles brincam com letras pretensamente sexys e fazem uma boa mistureba de guitarras e elementos eletrônicos. O som, no final das contas, fica ótimo para ouvir no carro, voltando do trabalho, principalmente se o eixão estiver descongestionado e a gente tiver que se preocupar só em reduzir pra passar nos pardais.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Nova ponte aérea


Minha tristeza não tem fim, por uma história que também não tem, mas pelos intervalos que brincam de pausas semibreves e insistem numa melodia que me quebra, me desarranja e bate em síncope o meu coração.

É a falta do gosto, a falta da vida, da cor. É a saudade de tudo.

É o medo do escuro, da dor, do topor e do esquecimento. É meu lamento mudo, que não tem quem o escute.

É o quarto sem ele lá, ele sem eu aqui, e memórias, pensamentos tortos. É falta de escrever, de ser mesmo, de desenrolar. É o aqui e o lá, que juntos nos separam.

De que adianta cantar sozinho meu lamento, minhas notas bobas?

Minha música só tem vida para ele.

Até logo, São Paulo.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Nós

São Paulo são nervos, circulação, contraste e monocromia. É o fundo da minha alma, meu berço, antigo, de sinfonias dos sons monocordes da diversidade revelada.
Se você é isso, então nos vemos nos mesmos olhos irritados e nos ouvidos que já não sabem os sons ou cores. Somos dores e amores, e talvez mais dores que eles.
Mas o contorno alimítrofe de uma cidade não caberia em mim, porque meu corpo se margeia pelo mar, pelas arrebentações e pelas arrebatações, como você também me abateu. Carrego em mim a utopia viva do seu mar que ainda não é. Cerco seu continente, abraço seu corpo e em revolta me faço para dar a calmaria onde você vai navegar.
Somos sim um corpo único, dos braços planejados onde sabemos o que é e o que será. Somos Lúcio e Oscar simbióticos. Você me direciona, minha rosa-dos-ventos. Eu te margeio, seu porto seguro.

sábado, setembro 23, 2006

Está servido?


Se semana passada ele veio, eu vou nessa semana, e depois ninguém vai por um tempo, e depois vamos juntos e parece que nunca chega a hora de só estarmos.

Então esse tem sido o tempo em que cruzar os céus das barras de cereais não tem sido muito divertido.

Nos vai-e-voltas, a gente acaba levando, buscando e deixando pedaços de nós, e a Brasília daqui começa a sãopaulear um pouco nas chuvas de começo de noite, nos engarrafamentos que têm brotado em miniatura, num novo Mercado Municipal da 509 Sul, no Bexiga da 208 Sul e na neblina que não baixa há dias.

Esses dias então passei pela locadora minúscula da 312 Norte. Me correu na cabeça uma lista completa de filmes que encheriam dois fins de semana inteiros. Mas não parei, porque é mentira que conseguiria encher fins de semana ou horas sozinho.

Então voltei pra casa, rememorei velhos tempos e me entreguei novamente ao tédio da espera, com check-in feito, esperando o embarque.

domingo, setembro 03, 2006

Penélope e sua teia

Você arquitetou meus sonhos em formas novas, linhas certas e beleza única. Você trouxe a chuva ao vermelho de Brasília, e hoje os dias têm tons de pôr-do-sol e as árvores todas explodem em cores como fogos de artifício que comemoram você.
Você deu vida à minha aridez, deu forma à minha planície, reacendeu luz nos meus dias.
Por isso te espero esses dias, semanas e meses: sei que só posso ser um se formos juntos.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Como gostaria Lúcio Costa


Anjos desceram do céu, deslizando por cabos aéreos, até pararem poucos metros acima do chão. E aí ficam, inertes, aramados, com as roupas esvoaçantes em pedra dura e com olhos de uma expressividade esculpida.

Na cidade também de concreto e jardins, alguma coisa me enquadra em memórias tão estáticas e firmes quanto os anjos ou demônios católicos.

Estou vivendo neste presente contínuo em que sou visitado pelo mais doce e imaterial sentimento.

sábado, agosto 19, 2006

"Senhores passageiros, bem-vindos a Brasília"


Hoje é dia de visitas. E hoje também entendi um pouco sobre como deve se sentir um bisavô abandonado que recebe a família para almoçar no domingo de Natal. Porque hoje acordei antes do sol, arrumei a casa inteira, me arrumei inteiro e ainda são oito e pouco da manhã, o que quer dizer que tenho que esperar mais umas seis horas inteiras.

O que será que o tal bisavô ficaria fazendo?

(e vou me resumir à manhã desse vinte e cinco de dezembro, porque a noite, quando a casa fica vazia, deve ser triste e acho que meu cérebro entra em colapso se eu juntar expectativa com ansiedade, neste caso.)

terça-feira, agosto 15, 2006

Cem anos de solidão

Pôr do sol em Brasília. Pôr-do-sol laranja, laranja mesmo, entre os únicos prédios altos do Centro que não existe.

E eu decidi ler Cem Anos de Solidão com a ambição de digerir literaturas, compreender estruturas e acompanhas narrativas.

Sou mesmo mimético? Que sou tenho quase certeza, e essa não seria a pergunta realmente relevante. Importante mesmo é entender se minhas inspirações de admiração não me tornariam um ser de plástico retalhado, espantalho de Alice, que tivesse medo de ter ele próprio seu coração.

Ou tenho um coração costurado de nomes e desnomes, de fatos e desfatos? Sou então como um neologismo de palavras emendadas, de frases desencontradas que formam meu texto único – eu.

Ótimo, então. E eu seria pôr-do-sol sim de Brasília, mas com um mar enorme batendo nesse Setor Bancário Sul, fazendo o barulho constante que nunca teve data de início e em mim nunca teria prazo final.

Então minha vida passa a ser esses cem anos de solidão, do tempo que começou há gerações nas vidas que me compõem e termina nas minhas linhas, letras e significados personalíssimos.

domingo, agosto 13, 2006

Falta uma semana

Falta uma semana para eu ver meu amor.
Lembra daquela época em que as pessoas escreviam por cartas, que enviavam pelo correio e que demoravam muito tempo para chegar? Às vezes fico me simulando nessa situação, em que recebesse notícias de que ele chegaria no dia dezenove de agosto. Então eu ficaria nesse sábado inteiro de alerta, plantado na Saída Sul esperando ver no horizonte - horizonte longe esse de Brasília! - a figura incerta dele, vindo de sua longa viagem.
Fico imaginando isso e muito mais, com certeza. Penso e repenso e imagino e recrio e simulo. O tempo passa mais rápido desse jeito.
E também penso e repenso e imagno e crio e simulo futuros alternativos, com uma vontade grande de ver depois certezas e poder lembrar lá na frente esses passados.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Uma noite

E você me aponta uma solidão, e me perco nos sentimentos confusos de me ver novamente preso nas minhas próprias teias.

Grito sim, principalmente aqui, contra a cidade dos planos, do ser-não-sendo de Haas. Mas não gritava acaso mais alto contra a pequena cidade onde, mesmo cercado de rostos conhecidos por todos os lados, ainda era ilha - ela e eu?

Então questionei nos sonhos se a solidão seria mesmo um problema, e as voltas que me dou parecem me bastar. Mas questionei sim o seu não me querer relativo, nas linhas de uma conversa quase honesta que tive comigo e deixei você acompanhar. Isso seria mais verdade.

Gosto do plano piloto - dela e meu. Se você me emprestar suas asas, aqui, desacredito da solidão.

quarta-feira, agosto 09, 2006

04/02/2006


Num janeiro ensolarado deixo a ilha. Despeço-me do sábado alaranjado, num topor talvez da tristeza contida, já que sei que poderia circular as águas de Vitória e isso não seria mais que um adeus. Então melhor me entregar ao sono de quem não tem mais nenhuma tarefa a cumprir e esperar a largada da próxima etapa.

Falarei sobre a cidade num pretérito velado, numa narrativa literária, esquecendo o que convém. E aos que fico também serei memória nostálgica, como o verão que passou nas férias da infância.


E sentamos juntos, e vivemos juntos. E escrevemos juntos um texto a duas mãos direitas, um caminho de quatro tênis de corrida e uma sinfonia só com dois instrumentos.

E um acorde maior não seria tão harmônico. E o silêncio mais profundo não seria tão melódico.

Sou seu sim. Você é meu.


Consigo explicar o que sinto? A falta, uma semitristeza breve, como se o mundo estivesse lá fora e eu, aqui dentro, não conseguisse me mexer. E realmente não vejo cor, vejo graça, vejo música se você não está aqui.


E, se é o que consigo fazer, posso dizer mais: que tenho medo de não ter você um dia. Como se tudo que foi antes não existisse mais, tenho medo de um amanhã que nos separasse.


E, se nem dizer consigo direito, e meu coração está inchado no peito, e meu mundo parece só estar completo agora com você.


Vou dormir para o dia amanhã nascer claro, alegre e mais próximo de quando você vai estar nos meus braços, apertado, de novo.

E O FIM DESSE COMEÇO

É sim. As folhas caíram, a grama secou. Mas a música voltou a tocar, as palavras voltaram a fluir.

Principalmente, o coração voltou a apertar, e a alegria triste novamente tinge as noites, tardes e manhãs de tons entre o azul do mais belo ao marrom de mais cinza.

Voltei eu. Agora menos paciente, ainda mais duro. Maduro?

Foi essa uma semana em que todos me olharam ao mesmo tempo, como se eu estivesse para declamar a maior das poesias. Me olharam de direções diversas, em pontos de vista de mim que prefiro guardar para mim mesmo.

E me quiseram todos. Cada um à sua maneira, mas todos de um modo muito par. E eu quis a todos em momentos diferentes, nos mais variados tons de sentimentos e intercâmbios unilaterais.

Até que veio ele, trazendo consigo um passado acumulado, como um teste do que vivi, me arremessando a carga no momento certo em que pareço pronto.

E ele me disse em poucas palavras e alguns silêncios as coisas mais belas e doces. E ele me guardou no peito as emoções mais macias e a paz mais branca. E ele fez fé nos minutos, fez fogo de uma luz efêmera.

E me afoguei novamente numa morna letargia do amar só, mesmo que não sozinho.

AINDA NESSE ENORME PRÓLOGO



Brasília para Ele ser

Era meia-noite e vinte e seis. Ele teria que esperar quase dez minutos para que a internet voltasse a funcionar. Foi o modo mais fácil que a empresa de cabeamento conseguiu para evitar que o hub ficasse parado por muito tempo no caso de falha no sistema: havia horas do dia em que a energia era automaticamente desligada para o aparelho por dez minutos. Ele sabia que meia-noite e meia, a internet cairia até meia-noite e quarenta. Como o relógio do computador estava atrasado, calculou o prazo.

Foi aí que Ele pegou o livro que Rachel havia deixado encima da estante: Sushi. Pareceu que as páginas estavam marcadas mais ou menos em um terço do volume. Folheou e as folhas pararam de passar.

Era um bilhete aéreo com um adesivo sobre o logotipo da GOL, impresso economicamente, quase que às pressas e clandestinamente, em papel de fax, já começando a perder a visibilidade. Marcava a data de 12FEB06, num enorme vôo 1617 de Vitória a Confins. O horário de 14h40 estava sublinhado.



Aquela fora uma tarde de sol úmido. ele almoçara com os pais para que não esquecesse o sabor do mar e da moqueca, através das paredes de vidro do Moqueca e Cia, à beira mar. Almoçaram mais cedo que gostariam e, mais cedo que gostariam, chegavam numa ânsia estranha no aeroporto de Goiabeiras.

Conversavam sobre as obras do novo terminal de embarque. Encontravam-se amigos, todos com poucos assuntos, sorrisos bobos e tristes. Falta de ânimo da tarde antecipada, em que se esperava, no sol a pico, o vermelho do fim de dia.

No embarque, duras palavras sinceras, saltadas do peito. Abraços desagradáveis espalhados, enquanto ele se desvencilhava para perseguir o atraso para chegar à sala de embarque.

Quase tudo que tinha passava pela outra porta de vidro, numa mala média, numa carroça amontoada. Passara por aquela sala apinhada, olhares trocados sem empatia com outros passageiros. E de lá para Belo Horizonte, nuns confins muito mais a norte e muito menos urbano que o que lhe pareceria conveniente.

Lia Sushi, entendia o que havia deixado para trás. Amava e odiava aquilo. Era uma faca que apertava em seu peito à medida em que ia ao oeste. E era uma vida esgotada que matava em nome de uma recém-novidade.

E teve horas de tempo para entrar naquele aeroporto pela porta dos fundos, e transitar lá dentro, sem em momento nenhum sair para as portas da cidade. E foram horas levadas, em que se comeu da simpatia tímida e da simplicidade brega dos mineiros, naquele prédio-prólogo do modernismo original de Brasília.

Outro bilhete molhado, grampeado, recortado, e a conexão o punha com sorrisos no portão B2 ao invés do B1, no assento 20F do vôo 1714 das 18h55 para Brasília, no aeroporto cujo nome já pronunciava com carinho de apelido: Aeroporto JK.

Não soubera mais se escolheu pêssego light ou caju, ou qual das barras comera. Sentira uma tristeza velada, uma certeza divina no futuro e, na fuga, se cobria com o manto da noite que se estendia sobre o mar calmo das serras de Minas.

Li Sushi. Era noite, era Irlanda chuvosa, do inglês que sai do conforto de sua ubanidade para a solidão de paredes antigas.

E, sobre o Planalto, vira o mar de estrelas, agora pela terceira e definitiva vez, o tapete de luzes ordenadas, que giravam umas por sobre as outras, direcionando cores amarelas e vermelhas. Eram quase dez horas.

Políticos cansados, senhoras desarrumadas e com maquiagens vencidas, se amontoando para recolher os pertences pessoais, logo após o “Já!” do “Bem-vindos ao Aeroporto Internacional (...) Presidente Juscelino Kubitschek”.

E o caminho solitário, com a vida agora amontoada em mais um carrinho, um caracol, para baixo em direção à saída conhecida, passando pelas plantações semi-artificiais de espécimes do Cerrado.

Táxi pelos R$30,00 em conta da CAIXA, o incerto ponto em que se atravessa o lago, do Lago Sul ao Eixão, pelas entradas e saídas dos então viadutos (?), através dos prédios da Caixa e do Bacen, como enormes peças de brinquedo, enterradas no barro vermelho. Depois girar à vontade até o Setor Hoteleiro Sul.

Fora um rápido check-in e um arrumar de roupa mimicamente cuidadoso, como se estivesse sendo observado por câmeras de reality show. Inclusive assistira Big Brother na Globo e Saia Justa (?) nos canais opostos.

Houvera raios e trovões, chuva e ventania, e ligações tão próximas e tão distantes.

(Em outro quarto, pouco antes, havia imitado surpresa: “Parabéns!” até de quem não deveria).

E noutro dia, atravessou as passagens secretas subterrâneas – salões de barbeiro, lojas de sapato, churrascaria, pizzaria, loja de roupas, saídas distantes para o metrô – até o estranho estacionamento do Setor Bancário Sul. Passou pela Emgea, estranhamente materializada no subterrâneo de um prédio qualquer. Um calor estranhamente conhecido de longa data, que agora era novamente úmido. Uma pressa desarranjada, uma timidez violentada. Uma realidade construída.

Cinco andares, que em insegurança girou em caracol pelas escadas, chegando ofegante à (direita ou esquerda?) Ouvidoria, com a caixa com seus carimbos, carteira de trabalho, talão de cheques e passaporte.

Não lembra de ter sido apresentado a ninguém. Foi uma seqüência em que alguma coisa se lhe apossou e se lhe fez trabalhar.

Só teve a certeza de voltar a ele quando peguou um vôo parecido em direção, mas com uma alma plena, com um espírito inteiriço, e agora levando para casa fotos do sentido oposto. Só foi ele de volta então.

O avião e a vida levam nosso corpo com rapidez nos sentidos mais improváveis. A alma ainda fica um tempo, assombrando o espaço-tempo, brincando entre aqui e lá. Ele teve que ir se empossar de uma nova alma, à medida em que deixava a velha, ela para sempre lá.

(03/06/2006 // 01:32 do relógio do computador)
Reconheço você
Nas frases, esperança e jeito
Mas te estranho em sua
Grande definição

Criança nova, homem adulto
Que confunde a ponto de não se ver homem
Muito menos adulto
E ver sim olhos verdes
E ver sim estátua de sal
E não escutar mais que seu silêncio
E saber que não existe fragilidade aí

Moço, alvo, branco
Dos olhos tristes, do ser abstrato
Sou eu mais que poderia ver em seus olhos?
Seus olhos que não me refletem
Suas palavras duras em tom infantil.

terça-feira, agosto 08, 2006

Um dia antes da minha vida irônica me trazer para Brasília, pensava demais e nem imaginava:

"Pe. Hugo de 20h às 22h, impreterivelmente. E poderia questionar coisas agora, planejar, especular, chorar ou evadir. Mas, se penso muito, posso me sentir vazio, posso ver correntes nos meus punhos. Posso não poder muito.

Acho que estou desenvolvendo uma paciência com a vida. E também estou vendo que minha paciência com os outros é mais por necessidade que por virtude, ao menos no meu egocentrismo.

Hoje me sinto pequeno e inofensivo. Me sinto bem preso neste corpo, neste apartamento, nesta vida de onde não poderia escapar com facilidade. Esta noite - hoje isso parece extraordinariamente cinza - não poderia andar mais que alguns metros antes do dia clarear. Não há entidades, não há aventuras... Se eu resolver procurar, talvez nem amigos haja. Não há evasão! Uma constatação que deveria ser aterrorizante. Para o meu "eu que fui", aterrorizante é a apatia deste limbo, o silêncio antes de nada mais.

O sim eterno de quando o verbo não tem sobre o que falar.

Hoje também vi apartamentos sendo desocupados e esse fim de era só foi triste porque é fim e é vazio. Acaba assim, às cinzas retornadas e sem chegar a nada mais. "


A cidade é Brasília. É terra arranjada, onde há muito mais céu que terra, onde há muito mais cidade que vida. É terra dos olhos distantes, dos retirantes, dos retirados. É do povo que tem raizes ralas, novas, mas fortes como as das árvores do Cerrado.

Brasília é uma grande reta, com um começo e um fim. Um segmento de reta, ligado ao mundo real por saídas cardinais e movimentados terminais de escape. E, nessa reta, te enlaçaram em voltas idênticas, que te confundem em pontos diferentes e matematicamente teletransportam a universos paralelos - também idênticos na forma e na contemporaneidade, além de numericamente aproximados - porém desgovernadamente inusitados. São pavilhões de concreto enterrado no chão, onde os sobreviventes do pós-mundo, reunidos no meridiano correto, matêm congelada uma vida inventada, artificial como qualquer reta que não se fecha em círculo.

É sim a terra do inusitado, onde a grama deveria sim estar sempre verde e os taxis deveriam sim ser sempre cinzas-escuros. É a terra onde não se imaginou pneus cantando, caminhos nascendo onde se impede a grama de crescer e engarrafamentos completamente inadequados.

Dizia ele que agora fazia parte disso tudo. E realmente fazia. Aqui, quase como em nenhum lugar do Brasil, não era preciso mais que um mês para estar em casa. Na terra de forasteiros, ele era mais um.

E queria ele... E sentia ele, porém, um sono enorme, mas que acordava ainda várias vezes por noite.